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Faveleira, planta típica da Caatinga, deu nome à primeira comunidade de morro no Brasil


Espécie causa urticária e pode ser encontrada em várias regiões do Nordeste e também no norte de Minas Gerais. Folhas da faveleira, espécie típica da Caatinga

Giuliano Tamura/TG

Juazeiro no norte da Bahia fica situada numa região de caatinga. Apesar de estar às margens do rio São Francisco que faz divida do estado com Pernambuco, as paisagens são aquelas típicas do semiárido brasileiro.

O solo boa parte do ano fica seco e a vegetação é composta por arbustos, cactos e espécies resistentes ao clima de pouca chuva. E caminhando pela zona rural de Juazeiro (BA), podemos observar uma das plantas mais interessantes desse bioma, a faveleira.

Faveleira pode ser encontrada em diversos estados do Nordeste e no norte de Minas Gerais

Giuliano Tamura/TG

Na obra literária "Os sertões", o escritor e jornalista Euclides da Cunha que cobriu a Guerra de Canudos (1896-1897) descreve um local onde estavam reunidos os seguidores de Antonio Conselheiro como "uma elíptica curva fechada ao sul por um morro, o da Favela". Euclides da Cunha explica que o nome do relevo tem a ver com o nome de uma planta comum em Canudos (BA).

A história relata que o Exército dizimou o arraial, Antonio Conselheiro e seus seguidores. De volta a então capital do país, Rio de Janeiro, os veteranos dessa campanha pediram ao governo federal da época, autorização para construir casas no Morro da Providência, na zona central carioca.

A semelhança por estarem num ponto elevado em relação à cidade, como em Canudos, ou talvez a recordação da vitória sobre os seguidores de Conselheiro, fez os novos moradores do morro começarem a chamar o lugar de favela. Termo que ficou popular para classificar habitações em áreas de morros.

Paisagem do sertão da Bahia, onde a planta foi fotografada

Giuliano Tamura/TG

A obra de Euclides da Cunha foi publicada em 1902, cinco anos depois do fim da Guerra de Canudos. Em 1909, o primeiro registro escrito da palavra “favela” com o significado de comunidade popular apareceu na revista carioca Careta, de circulação semanal.

A botânica Carolina Ferreira explica que a faveleira tem nome científico Cnidoscolus quercifolius, pertence à família Euphorbiaceae , a mesma da qual faz parte a mamona (Ricinus communis). A faveleira pode ser encontrada em diversos estados do Nordeste e no norte de Minas Gerais.

A espécie possui adaptações para resistir a períodos de seca prolongada. As raízes são tuberosas, ou seja, elas se dilatam para armazenar nutrientes. Ao final do período chuvoso as folhas caem, reaparecendo apenas no período chuvoso seguinte fazendo com que haja uma economia de energia ao reduzir as taxas de fotossíntese, além de evitar a perda de água por transpiração.

Faveleira registrada em Cabaceiras (PB)

Breno Farias / iNaturalist

Quem mora no sertão sabe que aproximar-se da faveleira pode causar problema. Mas há explicação científica. "A faveleira possui tricomas que são pelos urticantes, é uma espécie arbórea decídua, perde as folhas em determinada época do ano. Além disso, é heliófila, necessita de muita exposição solar. A espécie apresenta rápido crescimento, possui tronco curto com copa ramificada e pode atingir de 2 a 5 m de altura", complementa Carolina Ferreira.

O poder urticante da faveleira está nos tricomas presentes em quase todas as partes vegetativas e florais. Em contato com a pele liberam substância que podem causar fortes dores e urticárias.

As folhas de faveleira são espessas, lanceoladas, a ponta da folha é estreita e fina como uma lança. Apresentam em suas margens, pequenas estruturas pontiagudas. As flores são pequenas e brancas. Os frutos se abrem de forma explosiva fazendo com que as sementes sejam lançadas à uma distância de até 30 metros da planta mãe.

Flores da faveleira são pequenas e brancas

Giuliano Tamura/TG

A origem do nome faveleira, vem do fato da planta produzir sementes parecidas às favas ou favela, um tipo de leguminosa.

"Há diversos estudos publicados que demonstram que as sementes de faveleira são muito ricas em proteínas e lipídeos. A semente pode ser consumida in natura ou passar pelo processo de obtenção do óleo, assim como ser utilizada para elaboração de farinha. Pesquisadores mostraram também que ao incluir o óleo de faveleira na dieta de cabras, é possível aumentar o valor nutricional do leite e consequentemente do queijo produzido" , complementa a botânica Carolina Ferreira.

Frutos da espécie se abrem de forma explosiva, fazendo com que as sementes sejam lançadas longe

Giuliano Tamura/TG

Alguns estudos iniciais sobre o óleo da faveleira apontam que ele pode ser considerado como alternativa sustentável na produção de biodiesel e biomassa. No entanto, essas pesquisas ainda estão em andamento.

Representante de um bioma típico brasileiro, a faveleira se apresenta como uma planta versátil que apesar do seu poder urticário tem muito a oferecer como fonte de alimento e renda para as populações do sertão nordestino.

A distância de Canudos ao Rio de Janeiro é de 1.800 quilômetros. Mas quis o destino que as duas cidades ficassem entrelaçadas. Favelas e faveleiras são vistas todos os dias, tanto no interior da Bahia, quanto na cidade mais turística do Brasil. Uma ligação que ficou na história.

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